<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="yes"?>
<rss version="2.0" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/">
  <channel>
    <title>industrial complex | Hugo Ferreira</title>
    <link>https://hugo.ferreira.cc/tags/industrial-complex/</link>
    <description>Recent content in Industrial Complex by Hugo Ferreira</description>
    
    <image>
      
      <title>industrial complex | Hugo Ferreira</title>
      <url>https://hugo.ferreira.cc/hf-bw.jpg</url>
      <link>https://hugo.ferreira.cc/tags/industrial-complex/</link>
      
    </image>
    <generator>Hugo</generator>
    <language>en-GB</language>
    
    <copyright>2000–2024 by Hugo Ferreira · CC BY 4.0</copyright>
    
    <lastBuildDate>Thu, 02 Mar 2000 00:09:36 +0000</lastBuildDate>
    <atom:link href="https://hugo.ferreira.cc/tags/industrial-complex/index.xml" rel="self" type="application/rss+xml" />
    <item>
      
      <title>📋 A fábula dos porcos assados</title>
      <link>https://hugo.ferreira.cc/porcos-assados/</link>
      
      <pubDate>Thu, 02 Mar 2000 00:09:36 +0000</pubDate>
      <guid>https://hugo.ferreira.cc/porcos-assados/</guid>
      <description>&lt;blockquote&gt;
&lt;p&gt;O texto original deste trabalho, em espanhol, circulou entre os alunos do curso de pós-graduação da Universidade de Piracicaba em 1981. A subtileza com o que o autor satiriza um dos problemas de nosso tempo fez com que imediatamente o texto chamasse a atenção de alunos e professores., convertendo-se em tema de conversas e debates.&lt;/p&gt;
&lt;/blockquote&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a origem do assado é a seguinte:&lt;/p&gt;</description>

      
      
      <content:encoded><![CDATA[<blockquote>
<p>O texto original deste trabalho, em espanhol, circulou entre os alunos do curso de pós-graduação da Universidade de Piracicaba em 1981. A subtileza com o que o autor satiriza um dos problemas de nosso tempo fez com que imediatamente o texto chamasse a atenção de alunos e professores., convertendo-se em tema de conversas e debates.</p>
</blockquote>
<hr>
<p><em><strong>A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS</strong></em></p>
<p>Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a origem do assado é a seguinte:</p>
<p>Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir daí, sempre que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque! Mas deparavam com alguns problemas, que, no entanto, foram sempre sendo resolvidos com sucessivos aperfeiçoamentos, criando-se um grande SISTEMA.</p>
<p>O que quero que atentem é ao que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo.</p>
<p>Havia tempo que as coisas não iam lá muito bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava muito a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes — milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam da tarefa de assá-los. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, tanto mais parecia falhar e tanto maiores eram as perdas causadas.</p>
<p>Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados anualmente para encontrar uma solução. Mas parece que não acertavam na melhoria do SISTEMA. E assim, todos os anos se repetiam os congressos, seminários e conferências.</p>
<p>As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda às árvores, excessivamente verdes, ou á humidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava no lugar, no momento e na quantidade das chuvas &hellip;</p>
<p>As causas eram, como se vê, difíceis de determinar — na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Foi montada uma grande estrutura: maquinaria diversificada, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo — incendiadores — que era também especializados: incendiadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc., nocturnos e diurnos, com especialização em matutino e vespertino, de verão, de inverno, etc. Havia especialistas também em ventos — os anemotécnicos. Havia um Diretor Geral de Assamento e Alimentação Assada (DGAAA), um Diretor de Técnicas Ígneas (DTI, com o seu Conselho Geral de Assessores), um Administrador Geral de Reflorestação (AGR), uma Comissão Nacional de Formação Profissional em Porcologia (CNFPP), um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias (ISCUTA) e o Bureau Orientador da Reforma ígneo-operativa (BORI).</p>
<p>Tinha sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação, utilizando-se regiões de baixa humidade e onde os ventos não soprariam mais do que três horas seguidas.</p>
<p>Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que depois seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais potente, etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.</p>
<p>Foram formados professores especializados na construção destas instalações. Investigadores trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos; fundações apoiavam os investigadores que trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos, etc.</p>
<p>As soluções que os congressos sugeriam eram, pôr exemplo, aplicar triangularmente o fogo, depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus, posicionar ventiladores-gigantes em direção oposta à do vento, de forma a direcionar o fogo, etc.</p>
<p>Não é preciso dizer que poucos especialistas estavam de acordo entre si, e que cada um baseava as suas ideias em dados e pesquisas específicos.</p>
<p>Um dia, um <em>incendiador</em> categoria AB/SODM-VCH (Acendedor de Bosques especializado em Sudoeste Diurno, Matutino, com bacharelato em Verão Chuvoso), chamado JOÃo BOM-SENSO, pensou e disse que o problema era muito fácil de ser resolvido — bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor — e não as chamas — assasse a carne. Informado sobre as ideias do funcionário, o Diretor Geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e depois de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe:</p>
<p>— Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas, na prática, não funciona. O que faria o senhor, por exemplo, aos anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?</p>
<p>— Não sei — disse João Bom-Senso.</p>
<p>— E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os projectistas de instalações para porcos, com as suas novas máquinas purificadoras automáticas de ar?</p>
<p>— Não sei.</p>
<p>— E os anemotécnicos que levaram anos a especializar-se no estrangeiro, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los a limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos?
Que lhes faço, se a sua solução resolver tudo? Hein?</p>
<p>— Não sei — repetiu João, encabulado.</p>
<p>— O senhor percebe agora que a sua ideia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê, que, se tudo fosse tão simples, os nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? O senhor com certeza compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas &hellip; sem chamas! O que espera o senhor que eu faça aos quilómetros e quilómetros de bosques já preparados, cujas árvores são tão especializadas que não dão frutos nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me.</p>
<p>— Não sei, não senhor.</p>
<p>— Diga-me, em relação aos nossos três engenheiros em Suino-Piro-Tecnia, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor?</p>
<p>— Sim, parece que sim.</p>
<p>— Pois então?! O simples facto de possuirmos valiosos engenheiros em Suino-Piro-Tecnia indica que o nosso sistema é muito bom. O que faria eu a indivíduos tão importantes para o país?</p>
<p>— Não sei.</p>
<p>— Percebeu? O senhor tem é que trazer soluções para certos problemas específicos — pôr exemplo: como melhorar as anemotécnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (a nossa maior carência), como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o SISTEMA, e não transformá-lo radicalmente, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!</p>
<p>— Realmente &hellip; eu estou perplexo! — respondeu o João.</p>
<p>— Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não ande por aí a dizer que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina. Agora, entre nós: devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia. Isso poderia trazer-lhe graves problemas a si e ao seu cargo. Não por mim &hellip; o senhor entende. Eu digo isto para o seu próprio bem, porque eu compreendo-o, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor bem sabe que pode apanhar outro superior menos compreensivo, não é assim?</p>
<p>JOÃO BOM-SENSO, coitado, não disse nem mais um &ldquo;a&rdquo;, sobre o assunto. Sem se despedir, meio atordoado, meio assustado, com a sensação de estar a caminhar de cabeça para baixo, saiu de fininho e nunca mais ninguém o viu. <strong>Por isso é que ainda hoje se diz, quando há reuniões de Reformas e Melhoramentos, que &ldquo;FALTA O BOM-SENSO&rdquo;.</strong></p>
]]></content:encoded>
    </item>
  </channel>
</rss>
